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Protomártires da Igreja de Roma

ProtomartiresHoje celebramos esta antiga festa, que mostra que a Igreja, desde o início, concedeu uma reverência especial àqueles que testemunharam com seu sangue a fé em Cristo.

Não conhecemos os nomes dos Protomártires, mas sabemos que foi uma multidão. O Martirológio Jerônimo (Séc.V), sustenta o número 979.

Isso aconteceu na época de Nero, que foi imperador de 54 a 68. Foi ele quem desencadeou no Império a primeira grande perseguição contra os cristãos, que durou cerca de três anos, de 64 a 67.

Como nos diz o historiador latino Cornélio Tácito em sua obra “Os Annales” (15, 44), Nero aproveitou a oportunidade do incêndio de 19 de Julho do ano de 64, que atingiu diversos quarteirões no centro de Roma, para se defender da acusação de ter causado o incêndio, ele acusou os cristãos. A partir daí, foi mais fácil incitar a população pagã contra os cristãos e desencadear a perseguição.

Estes fatos ficaram bem gravados na memória. No ano 95/96 o Papa Clemente em sua carta à comunidade de Corinto, refere-se à perseguição: “Tenhamos diante dos olhos os bons apóstolos Pedro e Paulo… A estes homens, mestres de vida santa, juntou-se uma grande multidão de eleitos que, vitimas de um ódio iníquo sofreram muitos suplícios e tormentos tornando-se, desta forma, para nós um magnífico exemplo de fidelidade” (5, 3-5; 6, 1)

O Papa Gregório XIII deu ordem para compor uma ópera em memória dos mártires, referindo-se a descrição de Tácito: “Em Roma, celebra-se o natal de muitíssimos santos mártires que, sob o império de Nero, foram falsamente acusados do incêndio da cidade e por sua ordem foram mortos de vários modos atrozes: alguns foram cobertos com pêlos de animais selvagens e lançados aos cães para que os fizessem em pedaços; outros, crucificados e, ao declinar do dia, usados como tochas para iluminar a noite. Todos eram discípulos dos apóstolos e foram os primeiros mártires que a santa Igreja romana enviou a seu Senhor antes da morte dos apóstolos”.

O local era o Circo de Nero, que coincide com o lado esquerdo da atual Basílica de São Pedro e o pátio exterior. A pequena praça ao lado da sacristia hoje é chamada de “Praça dos Protomártires Romanos”.

A palavra “mártir” em grego significa “testemunha” e foi amplamente usada em discursos judiciais. Durante as perseguições contra os cristãos indicou os homens que, com o sofrimento e a morte, se tornaram ‘testemunhas’ da fé em Cristo.

Cristo é o primeiro mártir e a sua Igreja por uma boa razão pode ser chamada de “Igreja dos Mártires”.

Nas Constituições Apostólicas (Sec. IV), lemos: “Aquele que é condenado pelo nome do Senhor Deus é um santo mártir, é um irmão do Senhor, um filho do Altíssimo” (V, 2).

As perseguições imperiais terminaram no início do século IV, no Ano de 313 d.C., pelo Edito de Milão, o imperador romano Constantino, convertido ao cristianismo, proibiu a perseguição aos cristãos, que começou desde Nero, a partir do ano 67. Os mártires cristãos sofreram o desterro, deportação, trabalhos forçados, mortos pela fogueira, feras, lançados ao mar, etc. Isto porque eram considerados como ateus porque não adoravam os deuses do Império Romano e não aceitavam queimar incenso a César, considerado deus, mas a Igreja nunca deixou de ser perseguida. No século passado, o número de cristãos mortos por ódio à fé foi maior do que nos três primeiros séculos.

Com o tempo, o conceito de “testemunha” assumiu um significado mais amplo, como resultado das mudanças de atitude em relação à Igreja e à fé cristã.

Já S. Tomás de Aquino, afirma que deve ser considerado mártir, cuja morte que faz referência à morte de Cristo, aquele que defende a sociedade contra os ataques daqueles que querem corromper a fé cristã. (Cf. In IV Sent, Dist. 49, q. 5, a. 3).

Dom Tomasi, Observador Permanente da Santa Sé na ONU, declarou que mais de 100 mil cristãos são violentamente mortos a cada ano por sua fé. Outros, acrescentou, são obrigados a fugir, violentados, torturados ou sequestrados por causa de sua religião (Fonte Zenit, 13/5/29).

Ainda no século XXI, a Igreja é mártir. Os cristãos devem ser conscientes. Por esta razão, é importante retornar à carta acima mencionada do Papa Clemente: “Escrevemos isto, caríssimos, não apenas para vos recordar os deveres que tendes, mas também para nos alertarmos a nós próprios. Pois nos encontramos na mesma arena e combateremos o mesmo combate”. Sim, ainda hoje o cristão deve lutar, provavelmente em outras arenas, para ser sempre coerente com a sua fé.

A exortação de São Inácio, bispo de Antioquia, que foi martirizado em Roma no ano de 107 (alguns historiadores dizem 110) é extremamente relevante hoje. Em suas cartas enfatiza repetidamente que não basta se dizer cristão, é preciso dar provas disso também em nosso agir, ainda que custe a morte.

O Cardeal Camillo Ruini em sua “Lectio Magistralis”, realizada na Fundação ‘Magna Carta’, (Roma, 06 de maio de 2013) defendeu o direito de objeção de consciência, e acrescentou: “Não compete a uma maioria estabelecer o que é verdadeiro ou falso, nem o que é em si mesmo justo ou injusto. O jogo democrático não é a verdade sobre as coisas, mas apenas as regras comuns de comportamento. Aqueles que por razões de consciência, acreditam que não podem cumprir estas normas, é justo que tenham a possibilidade de objeção de consciência. Se as leis, nesse caso, não consentem tal objeção, poderá dar testemunho de suas convicções de forma mais cara, mas também mais forte, enfrentando as sanções previstas em lei. De fato, os objetores de consciência mais heroicos e eficientes foram e são os mártires cristãos das diversas épocas históricas”.

A vocação ao martírio não é uma característica da Igreja dos primeiros séculos, mas é parte intrínseca de sua natureza.

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