1- INTRODUçãO:
Rm 13 é chamada de “a magna carta” da obediência cristã mas o texto fala claramente da obediência à autoridade pública e civil, e foi o objetivo de São Paulo naquela época, de orientar os cristãos na vivência secular de sua vocação.
Temos que olhar este texto a partir do ponto de que há de fato, uma obediência que se refere a todos – superiores e súditos, religiosos e leigos – que é a mais importante de todas, que rege e vivifica todas, não é a obediência do homem ao homem, mas a obediência do homem a Deus.
Santo Irineu nos ajuda nesta caminhada em relação à obediência, de “retomar as coisas na sua origem e reconduzi-las à unidade” pois ele representa o estágio mais antigo da tradição acerca da obediência, o mais próximo da fonte.
A obediência ao longo da vida da Igreja assumiu várias formas e características:
v Obediência eclesiástica.
v Obediência monástica, tipo: basiliano – pacomiano – beneditino ( pobreza e renuncia da vontade própria ), franciscana ( Idade Média ), dominicana ( apostolado)
e Sto. Inácio de Loyola ( radicalidade da obediência ).
Após o Concilio Vaticano II exercitamos a obediência responsável, dialogante ou caritativa. Todas são expressões da vitalidade da Igreja que surgem a cada nova primavera, a cada novo tempo pela graça do Espírito Santo. Este mesmo Espírito é que renova na Igreja e em nós, a obediência. Alguém escreveu que: “Se hoje existe um problema de obediência, não é o da docilidade direta ao Espírito Santo – ao qual cada um diz submeter-se de boa vontade – mas, mais o da submissão a uma hierarquia, a uma lei e a uma autoridade humana.” É justamente para tornar possível e florescente esta obediência concreta à lei ( regras ) e à autoridade visível ( conselho, coordenador, formador ) que devemos retornar à obediência à Deus. Isto só é possível pela graça. É o Espírito Santo, o único que tem poder para dar ao homem, juntamente com o mandamento, a capacidade de obedecer aos preceitos e as leis.
A OBEDIÊNCIA DE JESUS
A Escritura define Jesus como “o obediente.” O fundamento da obediência cristã não é uma idéia de obediência mas um ato de obediência. Jesus aprendeu a obediência pelos sofrimentos que teve ( Cf. Hb 5,8 ), pelo aniquilamento de sua vontade. Mais do que a morte, a obediência de Jesus até a morte é que é a “constituição “ do Reino de Deus ( agradou ao Pai e nos salvou).
A obediência de Jesus é uma antítese exata da desobediência de Adão. Na origem de toda desobediência está uma desobediência a Deus. A desobediência de Adão consistiu em apropriar-se de sua vontade. Jesus desapropriou-se de sua vontade ( Cf. Fl 2,6-11) . Quantas vezes sabemos que precisamos fazer o que nos foi dito para fazer, e, conscientemente, fazemos a nossa vontade, desobedecendo deliberadamente.
A obediência abrange toda a vida de Jesus e Ele nos ensina que o mal é desobedecer a Deus e o bem é obedecer. Esta obediência manifesta-se de modo especial à Palavra da Escritura.
A obediência de Jesus é medida: Objetivamente pelas coisas que sofreu e subjetivamente pelo amor e liberdade com que obedeceu.
São Basílio distingue três disposições de obediência:
1 – Por temor do castigo = servo
2 -- Pelo desejo do prêmio = mercenário
3 – Por amor = dos filhos
Todas três são obediências. Devo ir crescendo nestes níveis.
A obediência é uma espécie de fé necessária quando a Palavra de Deus contém uma verdade não tanto a ser admitida, mas uma vontade de Deus a ser cumprida.
-“Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam. Falai bem dos que vos maldizem e orai por quem vos calunia.” Lc 6,27
-“Dá a todo o que te pedir e não reclames de quem tirar o que é teu. O que desejais que os outros vos façam,fazei-o também a eles.” Lc 6,30
-Bom samaritano: “Vai e faze tu o mesmo!” Lc 10,30ss.
E a fé, num outro sentido, é obediência pois a verdade a ser admitida, muitas vezes a razão não a aceita por sua evidência mas por sua autoridade.
-“Eu sou o pão da vida, quem vem a mim já não terá fome, e quem crê em mim jamais terá sede.” Jo 6,35
-“Eu sou o pão vivo descido do céu. Se alguém comer deste pão viverá para sempre. E o pão que eu darei é minha carne para a vida do mundo”. Jo 6,51
A excelência da obediência é renunciar à minha vontade própria para fazer a vontade de Deus; enquanto castidade: renúncia aos bens do próprio corpo; enquanto pobreza: renúncia aos bens materiais.
Diz um padre do deserto: “Na obediência realiza-se a semelhança com Deus e não só o ser a imagem de Deus.” Pelo fato de existir, sou a imagem de Deus, mas pelo fato de obedecer sou também sua semelhança, no sentido que, obedecendo, nos conformamos à sua vontade; tornamo-nos, por livre escolha, o que Ele é por natureza. Assemelhamo-nos a Deus porque queremos as mesmas coisas que Ele quer.
A OBEDIÊNCIA COMO GRAÇA BATISMAL
Em Rm 6,16, São Paulo nos ensina que nos tornamos livres pela jurisdição de Jesus. Ele é o nosso Senhor. Com o batismo aconteceu uma mudança de senhorio e não há senhorio em ato, se não houver, por parte do homem, obediência. Obediência aqui é mais “semelhança” que submissão. Os cristãos foram eleitos e santificados para obedecer ( 1Pe 1,2 ).
A vocação cristã é uma vocação para a obediência. A obediência antes de ser virtude é um dom, antes de ser lei, é graça. A lei diz para fazer, a graça dá para fazer. Ou seja, não temos apenas o dever obedecer mas já temos a graça de obedecer. A obediência cristã se fundamenta no batismo ( CIC 1269).
A OBEDIÊNCIA A DEUS NA VIDA CRISTÃ
Obedecer é morrer, requer verdadeira e própria conversão ( Dt 30,2 ). Decisão de buscar a vontade de Deus nas pequenas coisas; renúncia à minha vontade para fazer a de Deus. Abrir mão do meu projeto para ouvir o chamado de Deus. A obediência não termina em descobrir a vocação mas em submeter-me a ela a cada dia. O chamado de Deus continua a cada dia.
Como se dá a obediência na Comunidade?
Aquele que exerce a autoridade deve basear-se o mínimo possível no título ou cargo que exerce e o mais possível na sua obediência a Deus.
O servo não deve interrogar-se ou pretender saber se a decisão do superior é ou não conforme a vontade de Deus. Deve presumir que seja. Assim a obediência a Deus ou ao Evangelho é fruto do Espírito se traz consigo o desejo de também obedecer aos seus superiores, aos representantes de Deus. A obediência ao superior é o indicador da obediência a Deus. Se não obedecermos à autoridade constituída por Deus, como dizer que obedecemos a Deus.
MARIA A OBEDIENTE
Nós acreditamos nas coisas que aconteceram. Maria acreditava nas coisas que iam acontecendo enquanto aconteciam. Maria obedeceu em situação de contemporaneidade: para ela era a primeira vez na história.
Nós não somos os primeiros, temos a graça de ter Maria e tantos outros santos e santas que pela obediência a Deus são modelos de santidade para nós.
Ë preciso enamorar-se da obediência que é a chave que abre o coração de Deus Pai( Hb 10,5-7). Eu sou obediente porque amo a Deus.
BIBLIOGRAFIA: A obediência – Pe. Raniero Cantalamessa