A Cruz e a Glória
1- SEM CRUZ NÃO HÁ GLÓRIA
Luc 24, 25-26: “Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes tudo o que anunciaram os profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse estas coisas e assim entrasse na sua glória?”
A sociedade faz todo possível para separar a tristeza e a alegria. Por isso, a tristeza e a dor devem ser evitadas a todo o custo, porque são o oposto da alegria e do contentamento que desejamos. A morte, a doença, as fraquezas humanas... tudo deve ser colocado fora do nosso olhar, são coisas que nos afastam da alegria. São obstáculos no caminho da nossa meta de vida.
Jo 12,24-28
Jesus nos revela uma maneira completamente nova de viver. É uma maneira segundo a qual a dor pode ser abraçada, não pelo desejo de sofrer, mas por saber que algo de novo nascerá da dor.
Jo 16,21.
O cristianismo é um estilo de vida, uma espiritualidade (jeito de pensar, falar, andar, vestir, trabalhar...), um modo de viver, ou melhor, é o modo de viver de Jesus Cristo. Neste estilo de vida a cruz tornou-se o mais poderoso símbolo desta nova visão. A cruz é o símbolo da morte e da vida, de sofrimento e de alegria, de derrota e de vitória. A cruz é contradição de valores, inversão dos valores temporais: diante da cruz a perseguição se torna bem aventurança; aquilo que parece escravidão aos olhos da sociedade se torna liberdade; ser pobre é ser rico; etc. Neste estilo de vida é a cruz que nos indica o caminho.
Luc 14, 25-35
2- O QUE É A CRUZ?
“Quem não pega a sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo”.(v.27)
Trata-se da renúncia a nós mesmos. Carregar a cruz para morrer nela era um suplício terrificante no tempo de Jesus. Aos poucos a cruz se tornou símbolo da redenção.
Nossa opção por Jesus e a sua cruz nos torna, muitas vezes ridículos perante o mundo e desprezados; uns condenados. A cruz é ser pobre, ser casto, ser honesto, ser obediente...
3- A CRUZ ESTÁ PRESENTE EM NOSSA CAMINHADA ESPIRITUAL
Em nossa caminhada espiritual há um itinerário (segundo Toresi) que deve ser seguido por aqueles que desejam progredir na vida espiritual. A cruz está presente em cada uma das fases.
1a. fase: a conversão para Deus (Euforia e lua de mel)
Quando experimentamos Deus e sentimos o que é ser cristão fazemos a escolha de Deus e vemos que tudo é vaidade, exceto amar a Deus. É o começo da vida espiritual. Deus nos oferece a oportunidade de nos purificar. Ele nos chama a purificar os nossos sentidos, nossa sensibilidade, nossa busca de prazer.
Quando nos ocupamos no apostolado a mortificação se traduz em amor, serviço, doação ao próximo. O amor nos impele a ajudar o próximo, a suporta-lo, a servir. Isso implica mortificação mas quase não se percebe. Ela é mesmo assim meritória porque existe amor .
Nesta fase – como em todas as outras – é importante viver o tempo presente. Buscar com decisão amar com todas as forças, até a doação total.
Se assim o fizer, ao fim do dia, quando a pessoa se recolher a sós com Jesus vai experimentar facilmente a intimidade com Ele, pois estava sempre presente na doação ao próximo.
Nesta fase não há grandes provações, só provas leves. Toda a vida passada parece completamente superada e as tentações do passado uma recordação remota – Reina alegria e entusiasmo e a pessoa aparenta ter atingido uma paz estável. Os sentidos são tomados e atraídos pelo Senhor para que os usemos para Ele. A oração é saborosa, o relacionamento com os outros é fácil. Tudo parece fácil. A pessoa canta sozinha.
2a. fase – As graças sensíveis da fase de conversão são menos sentidas. Não que Deus as retire, mas Ele nos chama a uma doação mais profunda a Ele, a um amor mais purificado e gratuito, sem defender de “dons” sensíveis, emotivos...
Passa-se a compreender aos poucos Jesus crucificado e abandonado e a buscar forças n’Ele. Mt 8,27-38 : Tu és o Messias
o Messias deve sofrer;
longe de ti tal coisa;
se alguém quer me seguir...
Deus quer purificar mais a pessoa, as razões da fé e, por isso, nessa fase começam a surgir provas sob a forma de tormentos, escrúpulos quanto à vida passada, tentações, dificuldades de distinguir se são tentações ou pecados. Nesta fase podem surgir dúvidas de fé.
Não é ainda uma purificação profunda mas uma primeira limpa para raspar a camada superior e de progredir na vida espiritual.
Já comporta momentos dolorosos, as primeiras dores espirituais que provocam uma grande perturbação e a sensação de se ter regredido espiritualmente, (não sinto mais fervor). Os autores espirituais dizem que essa dor é efeito de uma nova luz que o Senhor envia para que a pessoa se conheça a si mesma de maneira bem diferente. É Deus presente e trabalhando e penetrando profundamente o nosso ser.
Há dois perigos: (saudades das cebolas do Egito)
Desanimar pensando: “antes ia tudo bem; depois que comecei a amar a Deus vêm-me esses tormentos e tribulações” – daí o abatimento e perigo de recair no pecado.
Fugir da cruz – não enfrentar a provação e tornar-se tolerante. A pessoa sentiu a purificação, mas não teve coragem de aceita-la. Permanece superficial.
O único modo de vencer as dificuldades desta fase é amar a Jesus Crucificado e doar-se aos outros. O amor sincero aos irmãos vai levá-la de novo a experimentar Deus.
3a. fase – A fase dos frutos espirituais no apostolado. Quando Deus vê que obteve o que desejava, que a pessoa se tornasse mais sensível ao espiritual, Ele faz que as provações anteriores desapareçam, talvez por uma simples palavra do confessor. A pessoa, agora mais sensível a Deus passa a se doar muito em atividades quase incessante: pessoas se convertem por seu intermédio, a comunidade se fortalece, inúmeros frutos espirituais aparecem para a glória de Deus.
Existem provas típicas desta fase: (tentações dos primeiros lugares, ciúmes de outros)
Incompreensões das pessoas pelas quais trabalhamos. Sofremos porque não entendemos como elas tendo sido tão amadas e ajudadas por nós passam a criticar-nos. E aí em vez de reconhecermos que havia também egoísmo misturado em nossa doação, fechamos em nós mesmos e nos tornamos azedos e refreamos nossa caminhada espiritual.
Não conseguimos ver os frutos da nossa doação. Isso se dá porque nossa linguagem estava mais imbuída de nós mesmos do que de Deus. Corremos o risco de desânimo ou de atribuir o fracasso a mil circunstâncias.
Impressão de que os superiores não compreendem todo o bem que se fez. Também essa dor nasce do nosso amor próprio escondido no bem que se está fazendo. Resumindo, a pessoa fez o bem e se doou de verdade mas é preciso descobrir algo além do ativismo e abrir-se aos novos apelos que Deus lhe vai fazendo por vê-la desejosa de progredir. As provas visam purifica-la mais profundamente e uni-la mais intimamente a Deus.
Nesta fase é importante que a pessoa se abra aos irmãos acolhendo correções e conselhos. No irmão e na irmã que nos diz a verdade é Jesus que nos purifica. Os outros nos trazem a voz e a advertência de Deus. Na unidade com eles encontramos verdadeiramente a nós e o lugar onde cevemos estar.
4a. fase – Meus Deus e meu tudo. Deixamos Deus nos conduzir mais.
Deus transparece de mil maneiras, para as pessoas muito unidas a Deus basta um olhar, um sorriso.
As provações não desaparecem. Mas, esquecidas de si, a pessoa fica sempre mais tomada por Deus e cheia de amor ao próximo. Para ela só Deus importa e nada mais: sucesso ou fracasso, saúde ou doença, não lhe abalam. Ela só deseja fazer a vontade de Deus, dar glória a Deus. Mas, não de modo alienante, pois Deus é o Senhor do mundo e da história. Deus quer a salvação de todos os homens e ela está disponível para ser seu instrumento.
Sua oração é mais de abandono, de adoração: Amar a Deus – gratuidade do seu amor; vive-se o tempo presente; amar os irmãos é ver Jesus neles; ama-se Jesus na Cruz deixando-se moldar pelo Espírito; tem atitudes permanentes na caminhada e mais estabilidade emocional.
4- COMO VIVER A CRUZ DE CADA DIA
A vida é dom de Deus, é presente de Deus e por isso é muito bom viver com todas as conseqüências. As cruzes de cada dia são fundamentais para que possamos ver a glória de Deus.
Devemos então viver a vida com mais simplicidade, não dar um peso maior do que as coisas possuem, não fazer tempestade de um copo de água; não se levar tão a sério, isto é, não supervalorizar suas emoções temporais, pois amanhã você estará sentindo outra coisa; aprender a rir de si mesmo: das vitórias e dos seus fracassos, das suas quedas, de seu limitado entendimento. Levar a vida com bom humor fazendo uma opção consciente e diária pela alegria. A alegria não depende das circunstâncias.
Não deixar que a cruz o torne uma pessoa desagradável à comunidade, aos irmãos. Você é um limão, um boldo para a comunidade, para os irmãos?
Rm 15, 1-13
Quem nos separará do amor de Deus? A cruz nos une a Deus.
II Co 4, 7-11